Heroísmo no Paraná: o que os 120 anos do cerco da Lapa nos ensinam (ou Da coragem contra o conchavo)

O amigo Luiz Carlos de Jesus costuma me lembrar que o cidadão trabalhador e cumpridor de seus deveres é tão importante para sua comunidade quanto qualquer autoridade pública. Segundo ele, é o homem comum, que não ostenta cargos nem títulos, quem tem a missão diária de cuidar e educar seus filhos, preparando os futuros cidadãos do país. Também de acordo com ele, é o homem comum que movimenta a economia e gera tributos, a partir de seu trabalho.

Luiz Carlos está coberto de razão. Na verdade, pergunto-me mesmo se a afirmação de Luiz Carlos não deveria ser considerada modesta hoje em dia. Em um período em que a identificação da população brasileira com seus governantes atinge níveis baixíssimos, a importância do homem comum para a nação brasileira parece se sobrepor, e muito, à de nossas autoridades. A impressão é que não vivemos atualmente sob o governo de nossas autoridades, mas apesar delas – e quando não contra elas. Há uma clara desvinculação entre a realidade e os anseios da população e o que nossos governantes pensam e fazem.

Veja o caso do Paraná, por exemplo. Não faz muito tempo e testemunhamos um dos maiores conchavos já realizados entre os Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo do Estado. Em circunstâncias mal esclarecidas, a Assembleia Legislativa, com o apoio do Poder Executivo, elegeu para o Tribunal de Contas o deputado filho do presidente do Tribunal de Justiça. Pouco tempo depois, o benefício voltou ao Poder Judiciário, com a aprovação pela Assembleia do inconstitucional projeto de auxílio-moradia a nossos juízes. Tudo com o mais eloquente silêncio do Ministério Público.

No governo do Estado, a ordem é contemporizar: uma infinidade de partidos e grupos políticos misturam-se em uma relação regada à troca de cargos e secretarias – aliás, em rigorosamente nada diferente do que ocorre no governo federal, em que políticos paranaenses ocupam posições de primeiro escalão. O marasmo predomina, a mediocridade avança.

Sob pena de aumentarmos ainda mais a distância que hoje separa a população de seus governantes é preciso que nossas autoridades reconquistem o respeito de seus comandados. E não há outra maneira de fazer isso senão com a adoção de posturas corajosas e decentes, que despertem a admiração pelo bom exemplo.

Nos meses de janeiro e fevereiro de 1894, na cidade da Lapa, o Paraná foi palco de um dos maiores exemplos de bravura e dedicação à pátria da história do Brasil. Sob o comando do General Antônio Ernesto Gomes Carneiro (busto fotografado acima), 600 militares e civis resistiram por 26 dias às investidas de 3.000 homens das tropas federalistas de Gumercindo Saraiva, que se dirigiam a São Paulo. O episódio, que passou para a história como o “Cerco da Lapa”, envolveu combates travados corpo a corpo em cada esquina da cidade e resultou na morte de cerca de 500 pessoas. Muito sangue foi derramado, inclusive por conta das famosas degolas praticadas pelas tropas de Saraiva.

Os defensores da Lapa enfrentavam uma situação extremamente desfavorável. Além de apresentarem-se em número muito inferior ao do inimigo, faltavam-lhes material bélico, comida e água, devido ao cerco imposto. Até mesmo os cadáveres não podiam ser enterrados, pois o cemitério municipal estava ocupado pelos soldados federalistas. Apesar disso, os combatentes lutavam dia a dia, recusando as propostas de rendição oferecidas.

Heroi da guerra do Paraguai e braço direito do então presidente Marechal Floriano Peixoto, o General Carneiro conduziu seus comandados com impressionante tenacidade. Sua liderança era tamanha que o “Cerco da Lapa” só se encerrou quando o próprio General caiu morto, após ter sido ferido na tentativa de socorrer um de seus comandados. Ao ser informado do final da batalha, Floriano concluiu: “A Lapa caiu? Então o Carneiro morreu!”.

A Lapa havia sucumbido, mas os 26 dias que a cidade resistira se revelariam imprescindíveis para que as forças republicanas se agrupassem e, posteriormente, derrotassem os federalistas. Entre os historiadores do período, é unânime a conclusão de que a consolidação da República no país deve muito aos homens que lutaram em solo paranaense naqueles dias de janeiro e fevereiro de 1894.

Hoje, os restos mortais do General Carneiro e de seus comandados na batalha (entre eles os Coronéis Cândido Dulcídio Pereira, José Aminthas da Costa Barros e Joaquim Resende Correia de Lacerda) são mantidos no Panteão dos Herois, localizado em uma praça no centro da Lapa (fotos acima). A visita à cidade, a propósito, oferece uma rara oportunidade de reencontro com nosso passado, pois todo o centro do Município foi tombado (por  força, especialmente, da atuação decisiva do ex-prefeito Sérgio Leoni) e mantém as suas características originais.

Que os atos de coragem e dedicação dos combatentes do “Cerco da Lapa” possam, mesmo 120 anos depois, e por ainda muito tempo, lembrar-nos de que um dia as autoridades no Estado não cederam à covardia ou ao conchavo.

One thought on “Heroísmo no Paraná: o que os 120 anos do cerco da Lapa nos ensinam (ou Da coragem contra o conchavo)

  1. Homero, texto muito bem escrito do ponto de vista lingüístico, político e psicológico. As identificações positivas e saudáveis só podem serem feitas se houver a admiração que vem com o bom exemplo. Infelizmente no campo político isso esta cada vez mais em falta.

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