Centro Cínico – quem mentiu mais na Reforma da Paranaprevidência?

Previdência pública: o debate moral abafado

Por 31 votos a 20, a Assembleia Legislativa do Paraná aprovou na quarta-feira, dia 29 de abril, o projeto de Lei do governo que altera a Paranaprevidência. A entidade administra e paga as aposentadorias dos servidores públicos efetivos da Administração Estadual, além das pensões devidas a seus dependentes. Recebem pela Paranaprevidência os aposentados e pensionistas dos três poderes do Estado (Executivo, Judiciário e Legislativo), do Ministério Público e do Tribunal de Contas.

A exemplo de praticamente todas as entidades de previdência pública dos Estados brasileiros e da União, a Paranaprevidência enfrenta desde sua origem um problema muito simples: o valor total que arrecada com as contribuições dos servidores é insuficiente para o pagamento das aposentadorias e pensões sob sua responsabilidade. Ou seja, há o chamado desequilíbrio atuarial nas contas do ente.

Há mais de um motivo para o déficit no caixa das entidades de previdência pública do país, mas o principal sempre foi a necessidade de garantir aposentadoria integral aos servidores beneficiados.

Ao contrário da aposentadoria dos trabalhadores da iniciativa privada (funcionários, donos de empresas, trabalhadores rurais, autônomos e profissionais liberais), que é paga pelo INSS e tem um valor máximo (hoje fixado em R$ 4.663,75), a aposentadoria pública foi concebida para corresponder ao salário percebido pelo servidor no cargo.

Como, em muitas situações, a capitalização das contribuições dos servidores fica aquém da aposentadoria a que fazem jus (especialmente no caso dos servidores que recebem salários mais elevados), a diferença precisa ser paga pelo Poder Público.

A medida não provocaria inquietação se os recursos do Poder Público não fossem oriundos dos tributos cobrados da população. Como a grande maioria da população não é composta por servidores públicos, os trabalhadores da iniciativa privada, na prática, acabam complementando o pagamento dos benefícios previdenciários dos servidores.

O fato deveria despertar um enorme debate moral no Brasil, mas o assunto costuma ser abafado pelos sindicatos e associações de classe de funcionários públicos, que, ao menor sinal de opinião e ação contrárias, respondem com propaganda dramática e mobilização.

Assim, a retórica classista transforma privilégios em direitos, e qualquer proposta de alteração da legislação previdenciária é desqualificada, junto com seus proponentes. Ao mesmo tempo, quando necessário à defesa do ponto de vista das entidades de classe, a leniência do serviço público permite a reunião de grande número de manifestantes, a qualquer hora do dia ou dia da semana.

Centro Cívico de Curitiba, 29 de abril de 2015 (Foto: Joka Madruga / www.terrasemmales.com.br)

Centro Cívico de Curitiba, 29 de abril de 2015 (Foto: Joka Madruga/www.terrasemmales.com.br)

FHC, Lula e Dilma, unidos para reformar a previdência pública no país

Para diminuir o sacrifício dos cofres públicos com a previdência pública, o governo federal adotou uma série de medidas nos últimos anos. A primeira ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso, quando o Congresso Nacional aprovou a Emenda à Constituição (EC) nº 20, em 1998. A EC nº 20/1998 autorizou a aplicação do mesmo teto do INSS às aposentadorias dos servidores públicos que ingressassem no funcionalismo público federal a partir de então, embora tenha condicionado o início da limitação no pagamento dos benefícios à criação de uma previdência pública complementar, de contribuição facultativa.

A medida entrou em vigor em 2012, quando, durante o governo Dilma, a previdência complementar prevista pela EC nº 20/1998 foi instituída pela Lei nº 12.618/2012 para os novos servidores da União.

Antes, em 2003, no governo Lula, outra Emenda à Constituição (EC nº 41/2003) promovera nova reforma da previdência ao instituir a cobrança de contribuição previdenciária para inativos e pensionistas do país que recebessem benefícios superiores ao teto do INSS (a mudança já havia sido tentada por via infraconstitucional durante o governo FHC, mas acabou rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal).

Como o Paraná tratou do assunto

Buscando racionalizar a gestão da previdência pública estadual, o Estado do Paraná criou a Paranaprevidência em 1998.

Sob a concepção do engenheiro Renato Follador, a entidade repartiu seus recursos em dois fundos distintos. O primeiro, chamado fundo de previdência, assumiu o pagamento dos benefícios dos servidores ativos que, na data da publicação da lei instituidora da entidade (Lei nº 12.398/1998, publicada em 30 de dezembro de 1998), contavam com até 50 anos, no caso dos homens, e até 45 anos, no caso da mulheres.

O segundo, chamado fundo financeiro, assumiu o pagamento das aposentadorias dos servidores já inativos na ocasião e dos servidores que, embora em atividade, tivessem idade superior àquelas previstas para vinculação ao fundo de previdência.

Com a criação dos dois fundos, buscou-se permitir que ao menos um deles, o fundo de previdência, andasse com as próprias pernas e apresentasse equilíbrio atuarial. Como o fundo reuniria servidores mais novos, ainda não aposentados, o fundo poderia se capitalizar ao longo dos anos para, no futuro, honrar o pagamento das aposentadorias com seus próprios recursos.

Com o passar dos anos, a substituição progressiva da força ativa do Estado pelo ingresso de novos servidores acabaria por tornar o fundo de previdência o único existente na Paranaprevidência. Quando isso ocorresse, o fundo responderia por todos os benefícios pagos pela entidade. Até lá contudo, haveria tempo para capitalizá-lo ainda mais, especialmente pela adoção de outras medidas para o ingresso de recursos na Paranaprevidência, como a instituição do mesmo teto do INSS e a contribuição de inativos.

Enquanto isso, o fundo financeiro faria às vezes de uma espécie de bode expiatório da previdência no Estado. Marcado por um forte déficit, o fundo seria socorrido por aportes mensais do governo do Estado (no começo de 2015, esses aportes eram superiores a R$ 200 milhões por mês), até que o último benefício pago levasse à sua extinção.

Embora a concepção do Paranaprevidência tenha sido bastante elogiada e tenha produzido os resultados esperados em seus anos iniciais, o descompromisso posterior do Estado com a entidade e a falta de adoção de medidas necessárias ao combate do déficit da previdência acabaram comprometendo o seu sucesso.

Isso ocorreu especialmente a partir do governo Roberto Requião (2003-2010), que não apenas deixou de repassar valores devidos pelo Estado ao Paranaprevidência (em virtude de dificuldades no caixa do governo do Estado), como desrespeitou a Constituição Federal ao não instituir a cobrança previdenciária dos inativos. A conclusão foi apontada por diversos relatórios do Tribunal de Contas do Estado e noticiada fartamente pela imprensa e entidades de representação, como a insuspeita APP-Sindicato. Recentemente, o próprio engenheiro Renato Follador reforçou a afirmação em audiência na Câmara dos Deputados e em coluna publicada no jornal Gazeta do Povo.

No governo Beto Richa (2011 até os dias de hoje), a contribuição sobre inativos e pensionistas foi instituída. Também foi autorizada a extensão do mesmo teto do INSS para a aposentadoria dos novos servidores do Estado, a depender da criação de uma entidade de previdência complementar fechada de contribuição facultativa (a Lei Estadual nº 18.372/2014, publicada em 16 de dezembro de 2014, concedeu 180 dias ao governo para institui-la).

O notório e absoluto descontrole da gestão sobre as contas do Estado, contudo, levou a uma tentativa desesperada de reforma da previdência no início do ano. Sem dinheiro para pagar servidores e fornecedores, o governo encaminhou em fevereiro à Assembleia um projeto de Lei para extinguir o fundo financeiro da Paranaprevidência – e, com ele, todos os aportes mensais do governo na entidade. Todos os benefícios do Paranaprevidência passariam a ser pagos pelo fundo previdenciário.

O resultado da alteração era previsível: sobrecarregado com novas despesas, o fundo de previdência não só seria incapaz de pagar as novas aposentadorias, como deixaria de custear os benefícios para o qual fora criado.

Revoltados com o envio do projeto de lei à Assembleia (que ainda incluía originariamente a supressão de direitos remuneratórios da maior categoria de servidores do Estado, a dos professores), manifestantes invadiram o plenário da Casa Legislativa no dia 10 de fevereiro para evitar a votação.

Insistindo na aprovação do projeto, o governo do Estado reenviou os deputados da base aliada ao prédio da Assembleia Legislativa em um camburão, produzindo uma das mais patéticas cenas da história do Estado. Houve nova invasão da Assembleia, e o projeto foi definitivamente retirado de pauta.

Reforma da previdência:

Previdência pública no país: o debate moral abafado

Quem mentiu mais no Centro Cívico em 29 de abril?

Foi nesse cenário de sacrifício de recursos do erário com a previdência pública, crise financeira nos cofres do Estado, crise moral no Palácio Iguaçu e na Assembleia Legislativa e forte oposição dos servidores públicos que o governo levou à votação no último dia 29 de abril um novo projeto de Lei para reformar a Paranaprevidência.

O projeto assumiu o nº 252/2015 e, embora tenha deixado de propor a extinção do fundo financeiro, buscou transferir ao fundo de previdência a responsabilidade pelo pagamento de 33.556 benefícios então custeados pelo primeiro fundo.

De acordo com cálculos do próprio governo, a medida isentaria o Poder Executivo da necessidade de realizar aportes mensais de R$ 142,5 milhões no fundo financeiro, o que produziria uma economia anual de aproximadamente R$ 1,5 bilhão ao cofres públicos. O dinheiro, certamente, seria empregado para salvar o combalido caixa do Poder Executivo.

O que aconteceu na data da votação do projeto, dia 29 de abril, já é conhecido e passará para a história: 1- para evitar uma nova invasão da Assembleia, os Poderes Legislativo e Executivo do Estado, embasados em uma decisão judicial, cercaram a Assembleia com cerca de 3 mil policiais militares; 2- mais de 20 mil servidores públicos do Estado e outros manifestantes se reuniram no Centro Cívico para protestar contra a votação; 3- os servidores foram convocados por sindicatos, à frente deles a APP-Sindicato, que representa a categoria dos professores da rede pública; 4- políticos de oposição, liderados pelos deputados estaduais do PT e pelos senadores Roberto Requião e Gleisi Hoffmann, engrossaram com desenvoltura o coro contra o projeto.

Continuando: 5- um grupo de manifestantes tentou furar o cordão de isolamento mantido pela policia militar e invadir a Assembleia; e 6- em reação, a polícia utilizou balas de borracha, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogênio contra os invasores e o resto da multidão, promovendo um massacre em Curitiba que resultou em mais de 200 feridos e que por pouco não se transformou em tragédia; 8- o projeto de Lei foi aprovado; e 9- as imagens do conflito rodaram o país e algumas partes do mundo, gerando enorme revolta contra o governo do Estado.

O que talvez tenha passado despercebido é que, na batalha do Centro Cívico, de todas as vítimas, a verdade talvez tenha sido a mais castigada.

Governador, deputados estaduais da base aliada, manifestantes radicais, sindicatos, políticos de oposição, todos, a seu modo, mentiram sobre o que de fato buscavam na capital do Estado.

Bancada do camburão chega à Assembleia em 12/02/2015 (Foto: Gazeta do Povo)

Bancada do camburão chega à Assembleia em 12/02/2015: quem não merece o mandato que exerce tem dificuldades para erguer a cabeça (Foto: Carolina Pompeo Grando/Gazeta do Povo)

As mentiras de cada um

Beto Richa

Hors concours no bairro curitibano que já se acostumou chamar de Centro Cínico, o governo Beto Richa se reelegeu com uma campanha milionária (só os gastos declarados totalizaram R$ 26 milhões, de acordo com dados oficiais do TSE) turbinada com muito fisiologismo – a exemplo da aliança firmada com o deputado federal Ricardo Barros, vice-líder do governo Dilma e marido da atual vice-governadora.

Na campanha, o governo mentiu explicitamente, apresentando à população a figura de um Estado que simplesmente não existia. Com a reeleição garantida, revelou-se que o Estado se encontrava quebrado, sem dinheiro sequer para pagar o funcionalismo público. Vieram então as medidas de austeridade, principalmente o aumento generalizado de tributos e os projetos de reforma da Paranaprevidência.

Ou seja, por mais que haja justificativas para alterar a previdência pública no Paraná, o atual governo não age orientado por planejamento ou questões morais, mas, sim, por uma necessidade premente de captar recursos públicos para fazer frente às suas despesas ordinárias. Afirma-se com tranquilidade, assim, que o governo também mente ao afirmar que o projeto nº 252/2015 não alterará o equilíbrio atuarial da Paranaprevidência.

Soma-se a isso o enorme desgaste da imagem do governador provocado pelas recentes denúncias de corrupção envolvendo pessoas muito próximas. O escândalo tem potencial para levar ao impeachment de Beto Richa, caso se descubra que a arrecadação de fundos para sua campanha tenha resultado em valores muito maiores do que os declarados à Justiça Eleitoral, e que as quantias tenham sido obtidas a partir de ações não republicanas. Sorte a do governador é que o Paraná não tem instituições significativamente sérias, e que a eventual punição dos culpados tende a não ocorrer.

Deputados estaduais da base aliada

Quem já fez campanha política no país, como eu, sabe muito bem qual é o fator determinante nas eleições brasileiras: dinheiro. O dinheiro não apenas permite uma maior divulgação da candidatura, como também, e principalmente, é empregado na contratação de cabos eleitorais de luxo (especialmente vereadores e líderes comunitários) e compra de votos. Depois de passar por uma profunda experiência eleitoral Paraná adentro, estimo que ao menos 30% dos votos do Estado sejam comprados, literalmente (pois é, também precisamos de melhores cidadãos…).

As eleições, em grande parte, tornaram-se uma estratégia comercial de planejamento, marketing e assédio ao “consumidor”.

A grande maioria dos deputados que atualmente integra a Assembleia Legislativa só está ali porque gastou muito dinheiro em suas campanhas, empregando valores altíssimos, que frequentemente superam em muitas vezes o montante oficialmente declarado à Justiça Eleitoral. É por isso que boa parte da Assembleia, atualmente, pode ser dividida em duas categorias: a das meninas e meninos ricos mimados, com destaque para os filhos de políticos famosos do Paraná, e a dos velhacos históricos.

É por isso, também, que o nível da mediocridade e da irresponsabilidade de nossos representantes não tem limites. O episódio do camburão é emblemático: quem não faz por merecer o mandato que exerce tem grandes dificuldades para manter a cabeça erguida, não tem compromisso com a população e orienta-se apenas pela manutenção de seus privilégios.

As duas grande bancadas da Assembleia Legislativa do Paraná: os meninos ricos mimados e os velhacos históricos (Foto: Pedro Ribeiro/ALEP)

As duas maiores categorias representadas na Assembleia Legislativa do Paraná: os meninos mimados e os velhacos históricos (Foto: Pedro Ribeiro/ALEP)

Manifestantes radicais

Há outra coisa que conheço bem na política: as manifestações de rua. Na época de estudante, participei ativamente da política acadêmica na Universidade Federal do Paraná, e, depois de formado, estive em dezenas de manifestações pelas ruas de Curitiba, especialmente no Centro Cívico.

O que posso dizer é que, em boa parte das vezes, há muitos radicais envolvidos. Os destaques ficam com os integrantes da esquerda radical – quase sempre ligados à política secundarista e universitária – e com os anarquistas. Embora os dois grupos tenham ideais distintos, seus objetivos são muito semelhantes: produzir violência para desgastar o governo que combatem (todos os governos, no caso dos anarquistas).

Vejo e revejo as cenas do início da confusão de 29 de abril e não tenho qualquer dúvida na afirmação: quem começou o confronto foram alguns manifestantes, que partiram para cima da linha de contenção formada pela polícia militar à frente da Assembleia. Muitos deles portavam escudos improvisados. Outros vestiam panos embebidos em vinagre (uma medida para tentar anular o efeito do spray de pimenta e gás lacrimogênio cuja utilização pela polícia já davam como certa). Duvido que entre eles houvesse verdadeiros professores, ou, ao menos, professores de verdade.

A tropa de choque interveio com força desproporcional e provocou o massacre que presenciamos, ao usar balas de borracha a esmo contra pessoas que protestavam pacificamente. O início da confusão, contudo, não foi provocado pela polícia.

Por conhecer muito bem as manifestações de rua, não tenho qualquer dúvida em outra afirmação: a Assembleia Legislativa do Paraná seria, de fato, invadida pelos manifestantes no último dia 29 de abril. Tem sido assim historicamente no Paraná desde a votação de um projeto de lei contrário à venda Copel durante o governo Jaime Lerner, em agosto de 2001. Em fevereiro, além disso, a Assembleia já havia sido “ocupada” (no jargão eufemístico dos manifestantes, frequentemente comprado pela imprensa) duas vezes.

A decisão judicial que autorizou o emprego de força policial no cerco da Assembleia, assim, não partiu de um exercício de adivinhação ilegal realizado pelo Poder Judiciário, mas de uma probabilidade concreta de incursão dos manifestantes no prédio da Assembleia.

Edição do Jornal do Estado de 21/08/2001: Assembleia Legislativa do Paraná vota projeto popular contra a privatização da Copel. A presença policial é grande porque, alguns dias antes, a Assembleia havia sido invadida por manifestantes contrários à privatização (apesar do resultado da votação, a Copel acabou não sendo vendida).

Sindicatos 

A absoluta maioria dos manifestantes que ocupavam o Centro Cívico no dia 29 de abril não leu e não gostou do projeto nº 252/2015. Ali estavam principalmente sob a convocação dos sindicatos dos servidores públicos, em especial da APP-Sindicato.

Também por experiência própria, aprendi outra coisa dolorosa, mas muito importante na vida: sindicatos de servidores públicos e associações de classe, em regra, têm atuação muito seletiva. Sindicatos e associações classistas movem o mundo quando o que está em jogo é a remuneração ou os benefícios de seus representados, mas não se preocupam com outras questões fundamentais do serviço público, como o combate à corrupção na esfera em que atuam ou a proteção a servidores perseguidos.

Algumas vezes, entidades de classe podem ser mais zelosas com o dinheiro próprio que o mais caricato capitalista.

Além disso, sindicatos costumam ter forte ligação com partidos de esquerda, principalmente o PT. A APP-Sindicato é exemplo acabado disso.

Assim, não se deve deixar seduzir pela retórica de sindicatos de servidores públicos. Quando um sindicato anuncia “defender o interesse público”, “proteger a democracia”, “evitar a destruição do Estado”, não dê o fato como pressuposto… Nunca.

Por fim, sindicatos são mestres na arte do drama e da propaganda. Sindicalistas já aprenderam há muito tempo que as grandes disputas políticas são vencidas menos pela justiça ou injustiça das medidas em discussão do que pelo apelo emocional e vitimização.

Tenho certeza, por exemplo, que, depois do que aconteceu no último dia 29 de abril, a consolidação da extensão do teto do INSS para o funcionalismo público no Paraná, por meio da criação da entidade de previdência complementar prevista na Lei Estadual nº 18.372/2014 – o que é inequivocamente o certo a fazer, do ponto de vista moral, constitucional e atuarial – será mais difícil. Quando o assunto voltar à tona, com ele voltarão as imagens e as palavras de ordem do dia 29 de abril, ainda que não haja relação necessária entre o motivo dos protestos e a medida.

Retórica  sindical: desconfie sempre.

Retórica sindical: desconfie sempre.

Roberto Requião, Gleisi Hoffmann e outros políticos de oposição

Há certas pessoas de que desconfio por instinto. Se estou diante de um quadro azul, por exemplo, e ouço delas que o quadro tem de fato essa cor, começo a questionar minha conclusão.

Os senadores Roberto Requião e Gleisi Hoffmann são algumas dessas pessoas. A efusiva participação dos dois nos protestos contra a reforma da Paranaprevidência, com direito à presença VIP no prédio da Assembleia no dia da votação, portanto, também merece destaque no rol dos integrantes do Centro Cínico.

Roberto Requião, como vimos acima, não apenas não poderia protestar contra a reforma na Paranaprevidência, como, na qualidade de corresponsável pela situação das finanças do Estado e pelo déficit da entidade, deveria mesmo era auxiliar Beto Richa na tentativa de aprovação da medida. A propósito, é curioso notar que, ao final de seu mandato, Requião não apenas não contribuiu para aplacar o déficit da Paranaprevidência, como deixou o cargo recebendo uma aposentadoria especial imoral paga pelos contribuintes a ex-governadores do Estado.

Gleisi Hoffmann, por sua vez, integrou os governos petistas que reformaram a previdência pública no país com a adoção de medidas muito mais drásticas do que aquela aprovada no dia 29 de abril.

Outros políticos de oposição também merecem destaque, como alguns deputados estaduais do PT que, de alguma forma, previram o que viria a acontecer no dia da votação, como se tivessem ciência prévia de alguma deliberação sobre a tentativa de invasão da Assembleia.

Gleisi, Requião e Richa: o debate político no Paraná em maus lençois

Gleisi, Requião e Richa: o debate político em maus lençóis no Paraná

O debate político que precisamos

O dia 29 de abril ficará marcado para sempre na história do Paraná pela violência desmedida empregada pela polícia militar contra manifestantes pacíficos (e outros nem tanto). Mas a menos que façamos uma grande reflexão sobre o debate público que o Estado precisa, o 29 de abril será apenas mais um dia na tradicional política paranaense, marcada pela mentira, e na qual todos os participantes, independentemente do lado ocupado, costumam jogar para a torcida e apelar para a propaganda.

Já passou da hora de exigir do atores políticos do Estado clareza, inteligência, coragem e, principalmente, honestidade em seu trabalho e na defesa de suas teses e convicções (ainda que impopulares). As medidas certamente não produzirão consenso de ações e opiniões – porque, afinal, isso é simplesmente impossível no campo da política –, mas terão por resultado um debate político decente, que busque efetivamente o bem comum, e não a simples disputa por poder.

Correção: uma versão anterior deste artigo mencionava que o Estado do Paraná ainda tentaria aprovar a extensão do teto do INSS às aposentadorias dos novos servidores públicos. A medida foi aprovada pela Assembleia no final de dezembro de 2014, pela Lei Estadual nº 18.372/2014, no chamado regime do “tratoraço”. A extensão do teto do INSS aos novos aposentados do Estado ainda não entrou em vigor, contudo, porque a entidade fechada de previdência complementar que assumirá a gestão das contribuições previdenciárias excedentes (e facultativas) dos novos servidores ainda não foi criada. 

138 thoughts on “Centro Cínico – quem mentiu mais na Reforma da Paranaprevidência?

  1. É importante deixar claro que a imoralidade está na gestão dos fundos e no governo estadual que há mais de 10 anos não realiza o repasse da parte patronal, e não no servidor público que contribui com 11% do salário INTEGRAL para a sua aposentadoria.

    O estabelecimento do teto do INSS e a criação de uma previdência complementar não diminuiria as responsabilidades financeiras do estado, uma vez que o governo teria que continuar contribuindo com sua parte.

  2. Bom dia Homero,
    Um bom texto, elucidador, concordo em vários pontos e discordo em alguns, mas observei uma ausência:
    Gostaria de saber por que você isentou o poder judiciário na sua analise sobre o dia 29 de abril e dos fatos que precederam esse episódio.
    Abraços
    Claudino

  3. “… E eu aqui penso que a Globo só é para faturamento alto mesmo. Querem mais dinheiro, assim como os petistas, os tucanos e eu.” Homero, concordo integralmente com seu colega: eu também quero mais dinheiro. Só fico aqui pensando que, diferente dessa “classe”: políticos, sindicatos, organizações, etc, eu trabalho muito pra receber meu parco salário. Entristeço-me muito ao ver as cenas do dia 29 por alguns motivos bem pessoais e possivelmente, mesquinhos. Não sou servidora pública, sou uma simples funcionária de um escritório, e sou antes disso – mãe de dois jovens de 22 e 19. Um acabou de se formar e está sem emprego e a outra está na faculdade ainda, cursando o terceiro ano de cinco. Com sacrifícios, é claro. Mas o que me entristece mesmo é saber, e isso vem do meu âmago, que tudo o que vemos, ouvimos, lemos e presenciamos é uma grande farsa para encobrir interesses por dinheiro e poder. Dinheiro e poder para si e para as próximas trocentas gerações que eles tiverem, porque o poder é uma praga. Nosso Brasil está empesteado por ganância em todas as esferas e nada, nada mesmo é o que parece ser. Talvez seja o que parece ser, apenas o sofrimento estampado no rosto de muitos professores que lá estavam, professores que fazem seu trabalho com sacrifícios pessoais monumentais e que ninguém vê. É claro que há também, no meio deles, muitos até, contaminados com o vírus da ganância, da corrupção, da insensatez e da incompetência, que usam o suor e sofrimento dos verdadeiros professores em benefício próprio. Mas, é nos que trabalham bravamente, todos os dias que penso, e me entristeço por eles. Também sei que os salários dos professores estaduais são bons, melhor que o meu, sem dúvida, e muitíssimo disputado quando aparece um concurso, mas educação é a base pra um mundo melhor e eles valem cada centavo. Sinto uma grande tristeza com tudo isso, mas quero agradecer aos professores honestos que possibilitaram o meu aprender e o de meus filhos. Se eles estão enganados, ludibriados e iludidos é uma pena, mas como os petistas, os tucanos, eu , você e o Anderson, eles também querem mais dinheiro, a diferença é que alguns trabalham e merecem tê-lo agora e no futuro também, quando se aposentarem. E não é certo, nem com os professores e nem com os policiais, também servidores públicos. E outra coisa… eles não vão esquecer e será que depois de tudo isso, voltarão pras suas salas de aula e continuarão iguais??? Duvido.

  4. Concordo com quase tudo… o texto está muito bem redigido e mostra como se dá a complexidade da nossa política, cheia de mentiras. No entanto, a tese de doutorado da professora Melissa Folman, especialista no assunto demonstra que a previdencia no BR diante da complexidade do sist tributário é uma das únicas do mundo, senão a única, que poderia dar lucro. Ou seja, não me venham com esse papinho de que não há dinheiro e que direitos devem ser reduzidos. Tanto no siatema do inss quanto no estadual da paranaprevidencia isso tudo só acontece por falta de planejamento, muda governador aqui e ali e todos querem meter a mão nessa “poupança”. Bandidagem.
    Eu, inclusive, já fiz as contas… se economizar 500 reais por mês, com a inflação de hoje e retirados os rendimentos das aplicações corretas (bem conservadoras, mas superiores a poupança) teria ao final de 30 anos um montante x que garantiria uma renda mensal durante outros 30 anos de 6500 reais, ou seja, algo superior ao teto da previdencia (Isso sem calcular que durante os 30 anos de aposentadoria, até a “previsão de morte”, o dinheiro adquirido renderia mais ainda com o reinvestimento de parte deste.

  5. Me agradou seu texto. Traz uma leitura que aparenta certa diplomacia, ainda que marcada por uma tentativa engenhosa de, digamos, “matar a charada”. Válida a tentativa, mas a meu ver igualmente enganosa, porque atende ao mesmo interesse dos demais personagens as quais se refere. Homero, penso que só conseguimos dizer da coisa por suas propriedades, e qualquer tentativa de afirmar que a propriedade não é a coisa em si me soa obvia e vazia, exceto enquanto advertência. Assim, sua oferta de uma leitura da coisa dicotomizando-a em verdade ou mentira a mim parece ser outra forma que igualmente encobre, a meu ver, a “verdadeira” razão pela qual nós (professores, policiais, políticos, e eu mesmo, quando me coloco a lhe escrever ou quando faço outras coisas) insistimos, insistimos, e insistimos, em obter poder, qual seja satisfazer aquilo que Freud chamou de a pulsão, e que o poeta despretensiosamente descreveu “não tem nome nem nunca terá”. Não é de uma verdade para além de cada um que precisamos, mas da minha verdade, que me dê poder para não sucumbir ao desamparo. Para finalizar reporto-me aqui a um texto escrito em 22 de abril desse ano em uma dessas redes sociais por um colega, Anderson Alves do Santos, a quem muito respeito: “Eleitores do PT dizem que a Globo é do PSDB; Eleitores do PSDB dizem que a Globo é do PT. E eu aqui penso que a Globo só é para faturamento alto mesmo. Querem mais dinheiro, assim como os petistas, os tucanos e eu.”

  6. Excelente texto! Muito esclarecedor. Mas concordo com Fabiana com relação a equiparar ao INSS, os servidores contribuem sobre o valor que recebem, logo, a aposentadoria será por esse valor também. Ou voce acha justo, no seu caso, que contribui pelo teto do INSS, se aposentar com um salario minimo?

  7. Olá Homero,
    Tomei conhecimento do seu texto através da publicação de uma professora. Ela sugeriu como uma interessante reflexão de leitura. Concordo. Aliás como concordei com vários pontos do seu texto. Sem sombra de dúvidas a atual situação do furo nos cofres do estado também se deve ao governo passado. E é nítido que figuras como Roberto Requião e Gleisi Hoffmann estão dando uma de oportunistas. Os professores tem consciência disso, assim como, uma boa parte das pessoas que apoiam a causa. O que talvez pese neste momento, é que é necessário ter apoio de figuras de poder, para dar força a causa. E que, não é mais a causa inicial, a aprovação de mudanças no plano previdenciário, o motivo dos protestos e da revolta tão incitada e levantada pela mídia, mas sim a violência desproporcional do dia 29 de abril. Houve a participação de outros movimentos como os tão falados “black block’s”? Certamente. Arruaceiros, pessoas que se infiltram com a finalidade de tumultuar e promover desordem, sempre fizeram parte dos cenários de protesto, porque se trata de um ato realizado em local aberto, público, qualquer indivíduo pode participar. Mas nesse caso, era um número muito pequeno. A situação poderia ter sido contornada de forma menos agressiva. Essa meia dúzia de possíveis agitadores poderia ter sido controlada rapidamente. A ALEP teria sido invadida? Provavelmente! Como você mesmo expõe, vimos isso acontecer em vários outros momentos da história. A tomada de prédios é um dos atos mais recorrentes nas manifestações. Quanto aos problemas que você menciona das classes, que aqui são os funcionários públicos, professores, eles tem obviamente diversos outros problemas e deficiências a serem debatidos e pelos quais o sindicato deveriam brigar, claro. Que classe trabalhadora hoje, no país, não tem? Mas vejo que ao longo dos anos essas classes estão tomando consciência do poder que exercem e indo a luta. E, incitados ou não por outros movimentos ou por questões partidárias, o abuso do poder, de autoridade e o emprego da violência desmedida é um fato contra o qual não se pode buscar qualquer justificativa. É isso que vejo sendo tão ressaltado pelo atual movimento. Porque um acontecimento desses não pode ser tolerado e simplesmente esquecido. Então, te digo, quem mentiu mais. Quem tentou de alguma forma justificar o que é INJUSTIFICÁVEL! Quem procurou mostrar que de alguma forma houve motivo para que a polícia atirasse durante mais de 1 hora desmedidamente, balas de borracha e bombas de efeito moral, vindas inclusive do alto, contra os PROFESSORES que protestavam. Porque os mais de 200 feridos em praça não foram os 6 BLACK BLOCK que tumultuavam, nem os “baderneiros” que tentavam invadir a ALEP. Essas pessoas eram PROFESSORES e até ALUNOS. Então, a única VERDADE vítima nesse cenário de 29 de abril foi a de que os poderosos, os políticos, coronéis ou como mais possamos denominar, são eles que mandam e desmandam em nosso país, mesmo em menor número. E eles são capazes de justificar e nos empurrar as verdades que lhes são convenientes. E se nós os ameaçamos, ou aos seus interesses, eles mandam bala. Eles mostram quem é que tem FORÇA. Dane-se você aí fora, dane-se os seus interesses. Aceite e diga amém. “ Continuemos a sessão, lá fora é problema da polícia ”. Opa! Achei que tudo fosse parte da mesma coisa, e que lá dentro, eles devessem defender o interesse do todo e não das partes. Então Homero, você não acha que essa movimentação toda faz justamente esse pedido, de uma política mais justa, mais clara e mais honesta? Que se mostra contra esse autoritarismo. Não é justamente refletindo sobre toda essa situação absurda, de mentiras e empurra-empurra que estamos sendo todos professores, pedindo providências? Porque, acima de todo o arranca rabo que se discute em meio ao tumulto, se não é essa busca de um debate político decente, não só no Paraná como no restante do Brasil, realmente, acho que precisamos refletir e muito. Para mim CÍNICO não é só o governador do Estado do Paraná, Sr. Beto Richa e a corja que junto a ele tenta provar o contrário do que VIMOS e VIVEMOS, são todos os que tentam provar a sua inocência através da opressão alheia. Porque a minha força massacra a verdade de qualquer outra realidade!

  8. Alguns funcionários públicos e privados, são verdadeiras massas de manobra política dos “Sindicatos do Crime,” mas envolvidos até o pescoço nos conluios da corrupção e pelegos dos patronais. Pelo que conheço dos Sindicatos, muitos de seus membros vivem uma vida nababesca e alguns tem até cavalos puro sangue em Aras particulares, carros importados caríssimos e apartamentos de cobertura, enquanto que, seus salários não suportariam tamanha ostentação. Lutar contra a corrupção e as garantias individuais, nem pensar. Aliados da esquerda reacionária cubanista, chavista, evococalero e etc, jamais apoiarão o justo quando podem prejudicar a ordem e o Estado de Direito, arrastando milhares e milhares de alienados para a desordem no “centro cínico”, como muito bem escreveu o nosso amigo Homero Marchese, à despeito dos insulfradores Requião e Gleise.

  9. Muito boas suas considerações Homero, o Poder Publico sempre foi um ninho de pessoas pouco afeitas aos verdadeiros interesses da sociedade como um todo. A Administração elege prioridades dentro de prioridades, arrecada-se muito e gasta-se muito. Os servidores tem os melhores salários do pais, aposentam-se com salários integrais. Meu sogro falecido, era militar de patente oficial, aposentou-se com 41 anos e contribuiu com a previdência própria por apenas 19 anos. Minha sogra recebeu benefícios até 96 anos, isto é, 55 anos sem contribuir e ainda as 2 filhas recebem até hoje e já estão com 65 uma e 63 a outra até morrer. Quem paga isto tudo somos nós contribuintes diretos e indiretos. Dai os preços no Brasil serem os maiores do mundo já que mais de 50% do valor das mercadorias e bens duráveis corresponde a tributos. A confusão e sua análise é perfeita, de direitos e benesses motiva servidores a usar suas influências políticos para se manterem beneficiados pelo serviço público a qualquer custo. A Grécia não sai desta crise devido aos seus funcionários púbicos aposentados com 53 anos de idade, o mesmo que procuram nossos esforçados professores. Atenciosamente. Harry Françóia – Curitiba – PR

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