Política, retórica e cinismo

Aristóteles: 384 a.C. a 322 a.C.

Aristóteles: 384 a.C. a 322 a.C.

Ah, a política, essa velha companheira da humanidade… Fonte inesgotável de pensamentos e discussões, livros, manifestos e discursos, tratados e guerras. O combustível dos revolucionários, a matéria-prima dos líderes, o desconforto dos acanhados.

Os homens têm feito política há tanto tempo que é provável que já tenham tornado seus resultados mais previsíveis, correto? Errado. Basta reunir duas pessoas em torno de uma determinada proposta para perceber como ela pode ser avaliada de maneiras distintas. O que é o certo a fazer? O que é melhor? O que é mais conveniente? As respostas variam e, não raras vezes, são contraditórias entre si.

Em tempos de enorme disseminação da internet e uso das redes sociais, constatamos dia a dia as divergências que alguns assuntos podem provocar. Ninguém parece imune à discordância, nem mesmo familiares ou amigos de longa data.

Muita gente não gosta desses efeitos e lamenta que a política seja o campo de controvérsias que, afinal, parecem nunca chegar a uma única conclusão. A esse respeito, contudo, não há muito o que fazer. Fazer política envolve deliberar sobre mais de uma solução possível, como percebeu Aristóteles ainda no século IV a.C..

Por esse motivo, aliás, o grande filósofo grego classificou o discurso político como um dos gêneros da retórica, a arte que objetiva a persuasão. Havendo mais de um caminho a seguir, cabe ao político deduzir bons argumentos para convencer a população a aderir à proposta que defende. Como quase sempre é possível argumentar a favor ou contra determinada proposição, a divergência de opiniões no âmbito político é a regra, e não a exceção.

Constatar a relação entre política e retórica é algo muito distinto, contudo, de confundi-la com o cinismo. Contra fatos, não há argumentos, e a verdade e a mentira são inegociáveis. Política envolve retórica, mas não é apenas retórica. Assim, a todo político que se preze cabe, antes de tudo, estudar e conhecer bem a realidade, para apresentá-la com honestidade à população (a conclusão, mais uma vez, remonta a Aristóteles). Só depois, cabe-lhe argumentar com energia, para obter a adesão às suas ideias.

Saber o que a política é, e o que ela não é, ajuda a esclarecer pontos importantes sobre o assunto. Em primeiro lugar, a conclusão deixa claro que não há justificativa para a mentira no discurso político. Versões fantasiosas da História, citações de dados e números falsos, difamações, tudo isso não é próprio à política e, portanto, deveria estar fora dela. Pelas mesmas razões, deveriam estar fora da política a demagogia e a contemporização, por mais numerosos que sejam os exemplos contrários, no Brasil e no mundo.

A delimitação do que é próprio à política, em segundo lugar, permite compreender qual é o ambiente necessário para ela prosperar: um meio em que haja livre circulação de ideias e da informação, com forte proteção da liberdade de expressão e de imprensa. A política é o local do ponto e do contraponto, da análise dedicada e da crítica contundente, da defesa das ações de governo, por parte da situação, e da severa fiscalização, por parte da oposição. Política não é ação entre amigos, política é o local da disputa de ideias e programas, dentre os quais a população deve eleger os melhores para seguir em frente.

Texto publicado originalmente em 31/05/2016, no jornal O Diário do Norte do Paraná.

Link para o artigo na versão digital do jornal:

http://digital.odiario.com/opiniao/noticia/2164519/politica-retorica-e-cinismo/

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