Escassez de água no sul do Brasil

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Água é um dos recursos naturais mais valiosos do mundo e agora também está sendo precificado. Em dezembro de 2020, a água começou a ser negociada no mercado futuro de Wall Street junto com o ouro, petróleo e outras commodities. A partir disso, fazendeiros, produtores de energia elétrica e fundos de hedge poderão se proteger contra as oscilações no preço do liquido. A ideia desses contratos é amenizar as incertezas sobre o preço e oferta da água para grandes consumidores como produtores rurais, de energia elétrica e para alguns municípios que podem passar por estresse hídrico.

Nosso planeta é formado em 70% por água sendo 97,5% desta salgada e 2,5% doce. O suprimento de água doce na superfície é de aproximadamente 0,3% do total e o restante encontra-se em geleiras ou nas profundezas do subsolo. O Brasil atualmente está em posição favorável no cenário mundial visto que possui 12% da água doce do planeta, das quais 80% encontra-se na região norte do país. Uma das grandes preocupações em relação aos recursos hídricos diz respeito à distribuição desses recursos no Brasil, onde o Norte possui 80% da água doce e 5% da população brasileira. O restante do país possui 95% da população e somente 20% da água. Estima-se que a quantidade de água no mundo seja a mesma que a três bilhões de anos atrás, repetindo continuamente o ciclo de evaporação, de condensação e precipitação, portanto, sendo um recurso limitado e desigualmente distribuído na superfície da terra.

A seca que estamos enfrentando atualmente no Paraná não se restringe somente ao nosso estado, mas também a outros estados que compõe também a bacia hidrográfica do rio Paraná, como Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Distrito Federal. A nota emitida pelo Sistema Nacional de Meteorologia[1] alertava para escassez hídrica na bacia principalmente devido à falta de chuvas no biênio 2021/2022, até setembro quando normalmente ameniza-se o período de secas. De acordo com levantamento solicitado pela Agência Nacional de Águas[2] houve alterações nos volumes de chuvas observados desde outubro de 2019 até abril de 2021 com precipitações acima da média observada somente nos meses de dezembro/2019, agosto/2020 e janeiro/2021 e predominando déficits nos demais meses com déficits acentuados a partir de fevereiro de 2021.

De acordo com levantamento dos dados do Monitor de Secas, de agosto de 2020 até julho de 2021, todo o território paranaense apresentou pelo menos nível de “seca fraca” com exceção para os meses de março, abril, maio e junho de 2021, quando o estado teve em torno de 2,1% de seu território sem nenhuma seca, conforme tabela.

MONITOR DE SECAS NO PARANÁ – % Território Paranaense de ago/2020 a Jul/2021

MêsSem SecaSeca FracaSeca ModeradaSeca GraveSeca ExtremaSeca Excepcional
Jul/20210%100%97,92%55,96%0%0%
Jun/20212,08%97,92%96,65%49,24%0%0%
Mai/20212,09%97,91%96,65%46,39%0%0%
Abr/20212,09%97,91%86,95%40,92%0%0%
Mar/20212,09%97,91%72,43%18,56%0%0%
Fev/20210%100%99,92%36,28%0%0%
Jan/20210%100%100%39,78%0%0%
Dez/20200%100%100%97,72%4,79%0%
Nov/20200%100%100%99,98%14,06%0%
Out/20200%100%100%82,22%8,60%0%
Set/20200%100%100%69,77%8,60%0%
Ago/20200%100%100%69,75%8,61%0%

FONTE: Monitor de Secas. Acesso: 02/09/2021. <http://monitordesecas.ana.gov.br/dados-tabulares?tipo=1&area=41>.

Analisando a tabela acima, em junho de 2021, 2,08% do território paranaense não apresentou nenhuma seca enquanto 97,92% apresentou alguma seca, mesmo que fraca. Ainda em junho notamos que quase metade do Paraná (49,24%) estava sob regime de seca grave e 96,65% em regime de seca moderada. Nota-se que de agosto a dezembro de 2020 o Paraná passou por agravamento das secas chegando a ter 14,06% da área em seca extrema e 99,98% do território em regime de seca grave em novembro de 2020.

MONITOR DE SECAS BRASIL – novembro/2020 e julho/2021

O mapa acima mostra a comparação das secas em novembro de 2020 e julho de 2021. Nota-se a redução das secas no interior paranaense que afetava principalmente o Oeste do estado com secas de nível grave no final de 2020. O monitor de secas também apresenta breve descrição da severidade da seca e seus impactos na agricultura local e abastecimento de água. No caso da seca extrema pode haver grandes perdas nas culturas locais e escassez ou restrições ao consumo de água. No caso da seca excepcional pode haver perdas severas na agricultura, escassez de água nos reservatórios e até mesmo nos poços, criando verdadeiras situações de emergência hídrica.

A pergunta que permanece diz respeito às causas da seca e da crise hídrica no estado. Que há escassez de chuvas e precipitações no estado nós já sabemos, porém, não sabemos as causa e impactos da falta de chuvas no nosso estado. O Sul do país é constantemente atingido por três principais massas de ar que atuam diretamente na formação de chuvas de acordo com época do ano, temperatura e relevo, conforme mapa abaixo.

CLIMATOLOGIA DO BRASIL – EDMON NIMER

FONTE: NIMER (1989) Os anticiclones mostrados na figura constantemente se aproximam e se afastam do continente conforme temperatura e época do ano. Tanto o anticiclone do Pacífico como o do Atlântico constituem as principais fontes de massa de ar tropical marítima da América do Sul. Porém, a massa de ar do Pacífico é impedida de avançar ao interior do continente devido à Cordilheira dos Andes, enquanto o anticiclone do Atlântico avança frequentemente para o interior do continente sul americano atingindo o Sul brasileiro. A massa de ar tropical do Atlântico normalmente vêm carregada de umidade atuando na estabilidade do tempo (tempo aberto e sol), cessando normalmente com a chegada de correntes perturbadas. As correntes perturbadas são trazidas pelo anticiclone polar que avança sobre o continente americano trazendo ar seco, frio e com pouca umidade, alterando significativamente as temperaturas e trazendo pouca chuva no sul do país no inverno. Porém, no verão esta massa de ar polar entra em choque com o anticiclone do Atlântico sul e ventos tropicais vindos da Amazônia

provocando precipitações no Sul do Brasil. De acordo com estudo as médias do volume de chuvas no Sul do país podem chegar entre 1250 a 2000 mm no ano, sendo distribuídas uniformemente na região com poucos pontos fora da média e nenhum ponto com carência de chuva. Apesar de distribuídas uniformemente, a intensidade das precipitações variam de acordo com a região e seu relevo. Por exemplo, o Litoral paranaense e localidades próximas à Serra do Mar apresentam menores índices de períodos secos devido à proximidade com o mar e aos fatores condicionantes da chuva na serra. Por outro lado, a região Noroeste tem mais chance de passar por períodos de secas devido à baixa altitude e distância do oceano, sendo influenciada também pela baixa do Chaco (ver mapa acima) – centro atmosférico de baixa pressão – o qual inibe muitas vezes as precipitações na região. Segue mapa com índice pluviométrico em cada região do estado.

PRECIPITAÇÃO MÉDIA ANUAL NO PARANÁ

Uma das principais características da região Sul é a igualdade da distribuição das chuvas durante o ano. Ao contrário do que acontece nas regiões Sudeste e Centro-Oeste (forte concentração de chuvas no verão e inverno seco) a região Sul é bem irrigada por chuvas ao longo de todo ano, geralmente com volumes altos no verão e menos precipitações no inverno. Com relação à distribuição de chuvas, o Paraná é particularmente beneficiado por se encontrar em posição estratégica de encontro das massas de ar polar e aquelas de instabilidade tropical vindas do Norte do país. Portanto, apesar de encontrar-se majoritariamente em área de clima temperado, o território paranaense também recebe chuvas de característica tropical.

A seca que atingiu o Sul do Brasil em fevereiro, março e abril de 2020 provocando estresse hídrico e continuando com a redução no volume de chuvas que começou em 2019, foi resultado de anomalias na temperatura do oceano pacífico que resultaram em alterações nos ventos e altas na pressão atmosférica. Uma dessas anomalias na temperatura oceânica já é conhecida popularmente no Sul do país como El Niño, descrito como aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico aumentando sua evaporação que normalmente resulta em períodos mais chuvosos que o normal nos três estados do sul. Porém, no início de 2020 o fenômeno foi diferente do usual, conhecido com El Niño Central, este concentra as águas quentes mais ao centro do oceano pacífico levando chuvas mais para a região Nordeste que para o sul. Aliado ao El Niño Central um aumento de temperatura acima do normal no atlântico norte conhecida como oscilação multidecadal do Atlântico Norte está correlacionada com o aumento das chuvas no Nordeste e redução da pluviosidade no Sul. A combinação do El Niño Central com o aquecimento das águas do Atlântico Norte e um evento chamado oscilação intercadal do Pacífico resultaram em forte seca na região Sul, visto que seus efeitos nos três estados são mais consistentes do que os efeitos observado em outras regiões do país, que podem apresentar redução ou aumento de precipitações, conforme artigo publicado por Alice Marlene Grimm[1], uma das principais especialistas em clima na UFPR.

A significativa redução das chuvas no primeiro trimestre de 2020 teve forte impacto no nível das águas da bacia do Paraná resultando em racionamento para população. Apesar deste cenário desfavorável ainda não há perspectiva de melhora no curto prazo para o volume de chuvas, visto que o boletim climático para o inverno de 2021 do SIMEPAR[2] aponta para o retorno do fenômeno La Niña que está associado ao resfriamento das águas do pacífico e redução das chuvas no Sul do país. A intensidade esperada do La Niña é fraca, no entanto, o cenário mais otimista é de chuvas dentro da média observada para os meses de dezembro, janeiro e fevereiro de 2022.

Por se tratar de uma região de clima temperado, o Sul brasileiro possui distribuição quase equitativa de chuvas ao longo do seu território e ao longo do ano, podendo apresentar picos de pluviosidade em diferentes estações, porém, com raros intervalos de tempo com nenhuma chuva. Essa característica da região dificulta bastante à previsibilidade das precipitações visto que grande parte das chuvas como vimos anteriormente dependem do anticiclone polar e das instabilidades tropicais, onde os volumes de precipitações variam de acordo com estrutura e intensidade que estas atingem o continente.

Nessa linha, a questão hídrica vai muito além de um mês ou dois com déficits de chuvas, normalmente alterações no nível dos reservatórios seguem períodos mais longos de redução de chuvas como o iniciado no primeiro trimestre de 2020. E a dificuldade de previsão de chuvas e o estresse hídrico que estamos passando, torna imprescindível a redução do consumo e o uso consciente da água que ainda temos disponível.